segunda-feira, 24 de março de 2014

Vamos ao cinema?

Você vai dormir tranquilo. Eu vou passar cada segundo da minha noite sentindo um pedaço do meu corpo se desfazer sem chance nenhuma de se reconstruir. Vai ficar aqui, pra sempre cada marquinha de dor e desprezo.
Eu vou querer te bater, te puxar da cama, mas as mulheres não podem nunca parecer loucas. Elas tem que se manter como estátuas que isolam sentimentos e demonstram total auto controle inclusive quando o mundo está caindo, cada pedacinho cortando uma parte de seu corpo.
Eu vou querer pedir, chorar, te chamar pra minha cama pra te abraçar e dormir achando que quando você acordar irá até mim com um beijo doce. Eu vou rezar para você me cobrir com o lençol e fechar a janela pro sol não me acordar.
Mas você... só vai dormir tapando bem os ouvidos pra nenhum barulhinho na rua te acordar. Você vai querer sexo de manhã, mas vai deixar pra decidir isso na hora que me vir acordada. Vai olhar bem nos meus olhos e sentir se estou feliz o bastante. Porque você só vai me querer se for assim, feliz. Sorriso no rosto pra transar com você.
Mas eu vou acordar com enxaqueca, crises de ansiedade e depressão. Eu vou me enrolar no lençol e pedir bem baixinho pra Deus me dar mais sono, só pra eu não ter que te encarar. Só pra eu não ter que me encarar. Eu vou morder a ponta dos meus dedos pra não gritar que te odeio e que você me faz sofrer. E só então eu vou acordar, tomar um banho e te chamar para ir ao cinema.

sábado, 1 de março de 2014

Fim

O sol queimava as frutas abertas em cima da pia, fazia falta a cortina. Comida suada, suco evaporando e um pedaço de pão integral ressecado há dois dias na cozinha.
Ela não conseguia tirar aquela camisola velha e larga que denunciava o quanto já era outra pessoa. Queria poder ter ação. Sabia o que tinha vontade mas não o que fazer com esses desejos. 52 filmes e uma série de TV por toda a madrugada.
Um corpo largado na rede quando ouve a cozinha denunciando a presença de alguém. O suco está fechado, frutas guardadas e a água fresca pela primeira vez entra naquele espaço. Ali está ele, afligindo a estática que permeava na casa desde a sua partida.
Naquele segundo ela esquece tudo que mentalizou escrever em uma mensagem desesperada. Esquece que por dois dias planejou o que fazer para aquilo tudo dar certo. Também todas as coisas de que estaria disposta a abrir mão. Só sente sua tristeza sendo violada por alguém que ela sabe que não a ama.
Tenta agarrar os restinhos de lembranças que poderiam fazer alguma diferença. Mas está cansada. Falta de amor cansa. Cansada demais até para erguer um copo contra a parede e fazer assim com que sua dor chame a atenção. “Você está vendo? Isso está doendo. Vidro cortado dói”.
Seu desespero deixa que fiapos de razão tomem conta das loucas atitudes. De que adianta brigar pelo impossível? Quantas lágrimas mais aguentar sozinha para que a união não se desfaça? Seu momento de loucura é também o de maior lucidez.
Bate a porta. Derruba a cadeira. Arranca todos os pedaços dele que ainda estão na casa. Joga fora tudo, pelos braços, pelos olhos e pela boca. Fim.