domingo, 29 de dezembro de 2013

Não curto espaço de amar

Gostava daqueles corredores, parecia que a vida toda poderia acontecer ali sem medo de pensar no depois. Talvez por isso tenha sido lá, naqueles corredores de frio alaranjado que eu percebi que, mesmo sendo meio desengonçado, eu gostava de você. Gostava de você ali e também no teatro com cheiro de naftalina e esperança, que enchia a gente de sonhos.
Aquelas paredes já não serviam mais pra resguardar as descobertas dos nossos carinhos, e eu comecei a gostar de você nas calçadas. Primeiro aquelas da porta da escola que se estendiam até a porta do seu prédio. Depois as da porta da minha casa e ao redor do shopping. Logo as ruas todas da cidade me disseram que era você.
As lojas de doces e os cinemas da Avenida Paulista. Os pontos de ônibus e os vagões do metrô faziam coro e cantavam alguma música manjada de amor cada vez que a gente passava. Músicas que viravam cartas. E as cartas viravam promessa. E a promessa virava uma febre gostosa e desesperadora. Uma forma de dizer eu te amo como uma obrigação divina, aquela que a gente sente um certo prazer sádico em cumprir, mas que talvez não passasse da nossa pouca habilidade em lidar com o amor.
Amar era andar de mãos dadas e pensar que um dia a gente poderia se casar. É que a gente ainda não sabia o que era vida. Talvez por isso fosse fácil e bonito. A gente ainda não sabia que vida muda a cor da parede e coloca um cheiro novo de cola e plástico nas coisas. E sem saber disso a gente continuava achando que podia conservar aquelas paredes laranjas e fazer delas nosso futuro, com toda certeza que ele seria ainda melhor que o presente.
A gente nunca mais viu aquelas paredes. E o cheiro de esperança pode ter acabado depois de alguma reforma, mas isso é coisa que não tem como saber. Algum outro perfume virou o meu favorito e eu nem sei dizer onde foi que eu o encontrei. Talvez tenha sido numa caixa nova que deixaram na porta de uma outra casa que se transformou na minha sem que eu tivesse tempo de te contar.
Já não conseguia mais escrever as cartas, nem cantar músicas. Não por falta de sentimento, mas parece que em algum momento as nossas mãos se soltaram e a cidade era grande demais para que a gente pudesse se entrelaçar. O mundo ficava no meio e impedia que nossos dedos se tocassem.
Continuei andando, acho que você também. E vez ou outra ainda tem uma carta guardada que me faz lembrar de quando nosso mundo era só um corredor

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Entre as flores e o amor

Achei você bonito. Bonito e charmoso, daquele tipo que não tem erro. Bem aquele que a gente chama de tamanho único, padrão que qualquer mulher ia gostar de ter. O que era bem estranho, pensando que meu padrão sempre foi o mais diferente, pra não dizer esquisito. Só que você estava lá, assim desse jeito e eu não conseguia deixar de reparar que você tinha um perfume que ficava impregnado na minha roupa.
Eu era a menina chata. Aquela que te olhava com uma cara cínica, olhar perdido tentanto simular a Capitu, sem imaginar que na verdade você não era capaz de diferenciar Primo Basílio de Memórias Póstumas de Brás Cubas. E você, só fazia ironizar meus livros espalhados no meio da minha bagunça e  cometer o pecado imperdoável de zombar o Chico. Eu me odiava porque eu deveria te odiar por zombar o Chico, mas só conseguia rir e achar meio charmoso esse seu jeito de falar de pop rock como se isso fosse o máximo.
Você era tão irritantemente diferente do que tinha escolhido como certo, que eu brigava comigo pra tentar te diminuir diante dos meus critérios metódicos de nivel de cultura, mas vinha aquele seu maldito sorriso na minha lembrança e eu logo me esquecia de criar uma lista de defeitos que justificasse a exclusão do seu número na agenda do meu celular. Porque cada vez que eu cogitava essa hipótese logo em seguida percebia que com isso eu nunca mais veria seu nome me chamando, e nunca mais sentiria ondas de tsunami no meu estômago  de tanto nervoso e ansiedade em escutar o que você queria me dizer.
O que acontece é que eu fui mesmo me apaixonando por essa coisa de você não ser nada perfeito pra mim. Porque eu sabia que não tinha nada mais que fizesse a gente querer estar juntos a não ser a vontade de estar juntos. Eu fui me apaixonando porque a gente tinha todos os motivos pra não querer estar, mas queria estar.
Me apaixonei pelas flores que você não me mandava e pelas cartas de amor que você nunca me enviou. Nelas fatalmente viriam frases copiadas de um livro barato que você nunca leu, jogou no google e copiou de qualquer site sem credibilidade. Mas ao invés disso você preferiu rir comigo na cama e simplesmente dizer que tinha vontade de me ver, pra me ouvir falar daquela banda com nome esquisito, que você mal conhecia, mas gostava do jeito como eu cantava desafinado pra te mostrar a letra descolada. E eu preferi ouvir suas palavras simples cheias de verdade e assumir que gostava de Jota Quest e que até toparia ir ao show do Capital Inicial.
Todas essas coisas me deram a coragem, e foi a coisa mais linda que eu ganhei. Coragem pra continuar com o que eu acreditava, e coragem pra descobrir tudo aquilo que eu poderia acreditar. Um sentimento de plenitude em encontrar paz com alguém que não me dava nada além de sinceridade. Assim, sem Chico, sem show e sem poesia.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Mais uma história de amor

Foi quando eu entrei naquela sala, chamada de última hora pra reunião que eu nem sabia que ia acontecer. Foi quando eu bati o olho em você que todos os clichês se personificaram em um segundo me dizendo que você era o cara certo. Aquela meia duzia de coincidências a nosso respeito e a forma como a gente deixou todo mundo de lado e deu a maior bandeira trocando telefones só deixava mais explicito que aquela era a história pra terminar como as histórias clichês terminam. 
Alto e charmoso, mas não muito bonito. Com o cabelo arrumado e aquela covinha no queixo. Bem do jeito certo pra me deixar com vontade de começar. E mesmo depois de trocar centenas de mensagens que diziam tudo sem dizer nada e te receber na minha casa por algum motivo inventado que você incentivava, eu mal conseguia lembrar qual era seu rosto. É, eu realmente estava gostando de você.
Durante meses aquelas paredes e linhas telefônicas eram cúmplices das nossas cantadas baratas que não conseguiam virar nada além de lugar comum. E mal sabia você que esse tempo exato em que tudo e nada aconteciam quando a gente conversava no meu sofá só fazia aumentar a minha vontade de passar a noite toda beijando seu cheiro de perfume misturado com cigarro.
Uma cerveja, Duas cervejas. Duas cervejas e duas taças de vinho. Era aquela a noite. 
- “Você tem namorado”?
-”Não” –  eu respondi tentando disfarçar meu nervosismo e parecer desprendida mesmo estando meio bêbada
- “Te falei que eu tenho namorada né”?
- “Não” – repeti, só que dessa vez com ar de quem não está nem aí, com a maior naturalidade do mundo, tentando fingir meu desespero com um risinho leve, bebendo rápido mais um gole de vinho enquanto uma bomba explodia nos meus ouvidos e pedras de gelo despencavam na minha cabeça. 
Você me beijou. E eu esqueci de qualquer coisa que pudesse fazer com que seu corpo saisse de cima do meu naqueles segundos. Porque tudo aquilo que eu já sabia que ia sentir quando  você estivesse comigo de fato aconteceu. Aqueles malditos sinos e borboletas que batiam as asas mais rápido do que as batidas do meu coração. Noites em que eu senti que o mundo devia acabar alí mesmo, com as nossas pernas entrelaçadas, pra eu esquecer que o telefone iria tocar nos instantes seguintes com algum pedido pra você voltar logo pra casa. 
Trocas de palavras cada vez mais intensas, construindo uma relação que não existia de verdade, a não ser pelo meu desespero em responder cada gesto seu. Nossa história, que na verdade era só minha, começava a se pautar na urgência em estar junto e ir embora antes que o celular te chamasse de volta pra vida real.
E assim, no desespero em te deixar saber que eu estava ali, foi que eu me dei conta de que na verdade você, o cara perfeito que jogava basquete, desde o começo era o cara mais errado do mundo. E era por isso que eu estava tão apaixonada. É… clichê. 

domingo, 1 de dezembro de 2013

Mil lágrimas

“Eu não sabia”, você repetia inúmeras vezes, até com um certo constrangimento. “Desculpe, eu não podia imaginar que seria assim”, você continuava a repetir enquanto eu olhava para o nada, não por falta de coragem de te encarar, mas porque meu corpo estava rasgado ao meio e tudo que eu menos precisava era deixar meu descontrole vir a tona e chorar todas as lágrimas que meu corpo pedia naquela hora.
Eu fui engolindo toda aquela água e sal, que foram enxarcando fígado, estômago e pulmão enquanto meu cérebro tentava processar seus movimentos ao meu redor, com uma mistura de quem arruma as malas pra sair com surtos de carinho para compensar a dor da partida. E todos seus pedidos de desculpas e justificativas misturados com cobranças tardias e explicações do que não tinha mais sentido ser explicado foram batendo no meu coração já afogado e me deixando tonta com tanta falta sentido.
Até que todo sal, toda lágrima engolida com orgulho, rancor e saudade do que já sabia que não teria mais subiram pelo esofago, não couberam mais e eu vomitei tudo em você. Aquela merda toda que eu queria fazer sumir mas que não tinha mais lugar debaixo do tapete pra guardar. Eu fui vomitando cada raiva, cada sumiço sem explicação, cada mágoa, cada e-mail trocado com a garota do restaurante, cada cantada na recepcionista, o apartamento que a gente iria morar junto e cada presente que você deu pros meus pais no almoço da familia.
Minhas lágrimas ocupavam cada milímetro do meu corpo, dentro e fora, enjoando cada vez mais o meu estômago e inundando meu rosto. Meu grito era cada vez mais alto para abafar a sua voz que continuava a usar a desculpa como forma de esconder toda negligência com aquilo que a gente insistia em chamar de amor. E meu corpo foi contra o seu, numa tentativa de evitar que eu me jogasse contra mim mesma.
E foi assim, debaixo da tempesteda que morou calada em nós por tanto tempo que eu te coloquei pra fora da minha casa quando você me colocou pra fora da sua vida. Foi assim que eu te mandei sair e me pedi pra esquecer. Foi assim que o fim começou, com gosto de ácido e cheiro de vômito. Foi assim, te pedindo pra sumir que eu comecei a rezar pra te ter de volta.