terça-feira, 5 de agosto de 2014

Pontos para o final

Todos os dias me peço para escrever nossa história. Falta ponto final e sobram reticências. As minhas histórias deveriam ter aquele final doloroso e bonito, mas parece que com a nossa a dor e o fim se misturam com um sem meio de carinho e algo gostoso de sentir.

E quanto mais longe do fim, mais essas mistura toma espaço. Como um emplastro que deveria curar, mas não serve nem com efeito de placebo. Só tem aquele cheiro forte, que quanto mais a gente tenta limpar mais exala, fica impregnado na pele e no cabelo.

Deveria ser tão claro o quanto isso é doente e sem sentido, mas ao mesmo tempo todas as histórias de amor parecem tão sem contexto. Histórias de amor tem fim? Histórias de amor são sempre cheias de dor? Pontos de interrogação que mais uma vez impedem o ponto final.

O que aconteceu com a rosa que a gente tinha no portão? Ela foi junto com aqueles pensamentos de viajar pelo mundo com você, pensamentos que até hoje eu não sei se em algum momento você compartilhou comigo. A rosa era de plástico, ela não morre. Mas o que é de plástico também não vive. A gente tentou dar vida e beleza a ela, mas nada pode dar vida ao que não nasceu para isso.
Por algum momento eu imaginei que aquelas rosas do parque poderiam dar lugar a nossa flor no portão, e agora eu penso que talvez elas tenham dado, e por isso mesmo tenham ficado lá, porque o que é belo não pode ser tão eterno, e se trouxéssemos elas conosco teríamos que vê-las murchando, e isso poderia fazer doer mais ainda.


As flores ficaram lá. Os sonhos talvez nunca tenham existido na verdade (como quando você dizia que a gente precisava sonhar). E a realidade começa a trazer os pontos, que eu ainda não tenho coragem de usar.

segunda-feira, 24 de março de 2014

Vamos ao cinema?

Você vai dormir tranquilo. Eu vou passar cada segundo da minha noite sentindo um pedaço do meu corpo se desfazer sem chance nenhuma de se reconstruir. Vai ficar aqui, pra sempre cada marquinha de dor e desprezo.
Eu vou querer te bater, te puxar da cama, mas as mulheres não podem nunca parecer loucas. Elas tem que se manter como estátuas que isolam sentimentos e demonstram total auto controle inclusive quando o mundo está caindo, cada pedacinho cortando uma parte de seu corpo.
Eu vou querer pedir, chorar, te chamar pra minha cama pra te abraçar e dormir achando que quando você acordar irá até mim com um beijo doce. Eu vou rezar para você me cobrir com o lençol e fechar a janela pro sol não me acordar.
Mas você... só vai dormir tapando bem os ouvidos pra nenhum barulhinho na rua te acordar. Você vai querer sexo de manhã, mas vai deixar pra decidir isso na hora que me vir acordada. Vai olhar bem nos meus olhos e sentir se estou feliz o bastante. Porque você só vai me querer se for assim, feliz. Sorriso no rosto pra transar com você.
Mas eu vou acordar com enxaqueca, crises de ansiedade e depressão. Eu vou me enrolar no lençol e pedir bem baixinho pra Deus me dar mais sono, só pra eu não ter que te encarar. Só pra eu não ter que me encarar. Eu vou morder a ponta dos meus dedos pra não gritar que te odeio e que você me faz sofrer. E só então eu vou acordar, tomar um banho e te chamar para ir ao cinema.

sábado, 1 de março de 2014

Fim

O sol queimava as frutas abertas em cima da pia, fazia falta a cortina. Comida suada, suco evaporando e um pedaço de pão integral ressecado há dois dias na cozinha.
Ela não conseguia tirar aquela camisola velha e larga que denunciava o quanto já era outra pessoa. Queria poder ter ação. Sabia o que tinha vontade mas não o que fazer com esses desejos. 52 filmes e uma série de TV por toda a madrugada.
Um corpo largado na rede quando ouve a cozinha denunciando a presença de alguém. O suco está fechado, frutas guardadas e a água fresca pela primeira vez entra naquele espaço. Ali está ele, afligindo a estática que permeava na casa desde a sua partida.
Naquele segundo ela esquece tudo que mentalizou escrever em uma mensagem desesperada. Esquece que por dois dias planejou o que fazer para aquilo tudo dar certo. Também todas as coisas de que estaria disposta a abrir mão. Só sente sua tristeza sendo violada por alguém que ela sabe que não a ama.
Tenta agarrar os restinhos de lembranças que poderiam fazer alguma diferença. Mas está cansada. Falta de amor cansa. Cansada demais até para erguer um copo contra a parede e fazer assim com que sua dor chame a atenção. “Você está vendo? Isso está doendo. Vidro cortado dói”.
Seu desespero deixa que fiapos de razão tomem conta das loucas atitudes. De que adianta brigar pelo impossível? Quantas lágrimas mais aguentar sozinha para que a união não se desfaça? Seu momento de loucura é também o de maior lucidez.
Bate a porta. Derruba a cadeira. Arranca todos os pedaços dele que ainda estão na casa. Joga fora tudo, pelos braços, pelos olhos e pela boca. Fim. 

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Rotina

-Quando foi que você deixou de me amar?
...
Sensação de ser a mira de um atirador de facas que erra o alvo.
- Quer almoçar junto? Macarrão e brócolis.
- Coloca a água para esquentar.
- Fica do meu lado?
- Não faz uma pergunta desse tipo.
O silêncio é meu e a angústia também
- Estou indo deitar.
A cama é grande e dois corpos antes como um só já não se tocam. Levanto. Choro. Tomo uma água e volto pra cama. Chorar faz bem, aumenta o sono. Mas te incomoda, me ama um pouquinho menos a cada soluço.
Ingênua eu. Com passado demais e você vai virando mais um pedaço de história triste. Sem coragem eu.
- Acordou? Quer um pãozinho ou iogurte com granola?


quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Um outro caminho

Eu tento escolher quais momentos serão guardados naquela caixinha que a gente tem em algum lugar da nossa alma. Aquela que não deixa que as sensações de felicidade sejam perdidas depois de descobrir que a rotina pode ser cruel. Pode ser cruel? Pode não ser cruel.
Fechar os olhos e ouvir a música. Olhar nos olhos e sentir a música. Perceber que a intensidade não cabe num espaço delimitado pela lógica.
Mudo o raciocínio. Quando foi que tudo mudou de forma e começou a ser tão certo? Parece ser mais obvio encontrar qual foi o instante em que o passado deixou de ser referência e permitiu que você entrasse. Mas isso também seria mentira porque na verdade você já estava ali desde sempre. Talvez no que eu precisava para ser completa. Talvez na espera que eu já estivesse completa para você.
Não fecho mais os olhos. Eu quase já nem respiro para sentir todas as reações da sua fala e do seu corpo sem nem me preocupar mais no quanto está ou não sendo guardado. Já está tudo aqui. Já está nos meus desenhos, os de agora e os que começo a fazer.
Palavras que ganham novos significados e sensações que ganham novas interpretações. É certo. Dá medo, mas é certo e isso me tranquiliza.
Começo a estender a minha mão, mas mudo minha intenção. Não preciso te chamar, você já está aqui. Então apenas seguro no seu braço e continuo andando ao seu lado.