sábado, 1 de março de 2014

Fim

O sol queimava as frutas abertas em cima da pia, fazia falta a cortina. Comida suada, suco evaporando e um pedaço de pão integral ressecado há dois dias na cozinha.
Ela não conseguia tirar aquela camisola velha e larga que denunciava o quanto já era outra pessoa. Queria poder ter ação. Sabia o que tinha vontade mas não o que fazer com esses desejos. 52 filmes e uma série de TV por toda a madrugada.
Um corpo largado na rede quando ouve a cozinha denunciando a presença de alguém. O suco está fechado, frutas guardadas e a água fresca pela primeira vez entra naquele espaço. Ali está ele, afligindo a estática que permeava na casa desde a sua partida.
Naquele segundo ela esquece tudo que mentalizou escrever em uma mensagem desesperada. Esquece que por dois dias planejou o que fazer para aquilo tudo dar certo. Também todas as coisas de que estaria disposta a abrir mão. Só sente sua tristeza sendo violada por alguém que ela sabe que não a ama.
Tenta agarrar os restinhos de lembranças que poderiam fazer alguma diferença. Mas está cansada. Falta de amor cansa. Cansada demais até para erguer um copo contra a parede e fazer assim com que sua dor chame a atenção. “Você está vendo? Isso está doendo. Vidro cortado dói”.
Seu desespero deixa que fiapos de razão tomem conta das loucas atitudes. De que adianta brigar pelo impossível? Quantas lágrimas mais aguentar sozinha para que a união não se desfaça? Seu momento de loucura é também o de maior lucidez.
Bate a porta. Derruba a cadeira. Arranca todos os pedaços dele que ainda estão na casa. Joga fora tudo, pelos braços, pelos olhos e pela boca. Fim. 

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