Ela não conseguia tirar aquela camisola velha e larga que
denunciava o quanto já era outra pessoa. Queria poder ter ação. Sabia o que
tinha vontade mas não o que fazer com esses desejos. 52 filmes e uma série de
TV por toda a madrugada.
Um corpo largado na rede quando ouve a cozinha
denunciando a presença de alguém. O suco está fechado, frutas guardadas e a
água fresca pela primeira vez entra naquele espaço. Ali está ele, afligindo a
estática que permeava na casa desde a sua partida.
Naquele segundo ela esquece tudo que mentalizou escrever em
uma mensagem desesperada. Esquece que por dois dias planejou o que fazer para
aquilo tudo dar certo. Também todas as coisas de que estaria disposta a abrir
mão. Só sente sua tristeza sendo violada por alguém que ela sabe que não a ama.
Tenta agarrar os restinhos de lembranças que poderiam fazer
alguma diferença. Mas está cansada. Falta de amor cansa. Cansada demais até
para erguer um copo contra a parede e fazer assim com que sua dor chame a
atenção. “Você está vendo? Isso está doendo. Vidro cortado dói”.
Seu desespero deixa que fiapos de razão tomem conta das loucas
atitudes. De que adianta brigar pelo impossível? Quantas lágrimas mais aguentar
sozinha para que a união não se desfaça? Seu momento de loucura é também o de
maior lucidez.
Bate a porta. Derruba a cadeira. Arranca todos os pedaços
dele que ainda estão na casa. Joga fora tudo, pelos braços, pelos olhos e pela
boca. Fim.
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