domingo, 1 de dezembro de 2013

Mil lágrimas

“Eu não sabia”, você repetia inúmeras vezes, até com um certo constrangimento. “Desculpe, eu não podia imaginar que seria assim”, você continuava a repetir enquanto eu olhava para o nada, não por falta de coragem de te encarar, mas porque meu corpo estava rasgado ao meio e tudo que eu menos precisava era deixar meu descontrole vir a tona e chorar todas as lágrimas que meu corpo pedia naquela hora.
Eu fui engolindo toda aquela água e sal, que foram enxarcando fígado, estômago e pulmão enquanto meu cérebro tentava processar seus movimentos ao meu redor, com uma mistura de quem arruma as malas pra sair com surtos de carinho para compensar a dor da partida. E todos seus pedidos de desculpas e justificativas misturados com cobranças tardias e explicações do que não tinha mais sentido ser explicado foram batendo no meu coração já afogado e me deixando tonta com tanta falta sentido.
Até que todo sal, toda lágrima engolida com orgulho, rancor e saudade do que já sabia que não teria mais subiram pelo esofago, não couberam mais e eu vomitei tudo em você. Aquela merda toda que eu queria fazer sumir mas que não tinha mais lugar debaixo do tapete pra guardar. Eu fui vomitando cada raiva, cada sumiço sem explicação, cada mágoa, cada e-mail trocado com a garota do restaurante, cada cantada na recepcionista, o apartamento que a gente iria morar junto e cada presente que você deu pros meus pais no almoço da familia.
Minhas lágrimas ocupavam cada milímetro do meu corpo, dentro e fora, enjoando cada vez mais o meu estômago e inundando meu rosto. Meu grito era cada vez mais alto para abafar a sua voz que continuava a usar a desculpa como forma de esconder toda negligência com aquilo que a gente insistia em chamar de amor. E meu corpo foi contra o seu, numa tentativa de evitar que eu me jogasse contra mim mesma.
E foi assim, debaixo da tempesteda que morou calada em nós por tanto tempo que eu te coloquei pra fora da minha casa quando você me colocou pra fora da sua vida. Foi assim que eu te mandei sair e me pedi pra esquecer. Foi assim que o fim começou, com gosto de ácido e cheiro de vômito. Foi assim, te pedindo pra sumir que eu comecei a rezar pra te ter de volta.

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