Gostava daqueles corredores, parecia que a vida toda poderia acontecer ali sem medo de pensar no depois. Talvez por isso tenha sido lá, naqueles corredores de frio alaranjado que eu percebi que, mesmo sendo meio desengonçado, eu gostava de você. Gostava de você ali e também no teatro com cheiro de naftalina e esperança, que enchia a gente de sonhos.
Aquelas paredes já não serviam mais pra resguardar as descobertas dos nossos carinhos, e eu comecei a gostar de você nas calçadas. Primeiro aquelas da porta da escola que se estendiam até a porta do seu prédio. Depois as da porta da minha casa e ao redor do shopping. Logo as ruas todas da cidade me disseram que era você.
As lojas de doces e os cinemas da Avenida Paulista. Os pontos de ônibus e os vagões do metrô faziam coro e cantavam alguma música manjada de amor cada vez que a gente passava. Músicas que viravam cartas. E as cartas viravam promessa. E a promessa virava uma febre gostosa e desesperadora. Uma forma de dizer eu te amo como uma obrigação divina, aquela que a gente sente um certo prazer sádico em cumprir, mas que talvez não passasse da nossa pouca habilidade em lidar com o amor.
Amar era andar de mãos dadas e pensar que um dia a gente poderia se casar. É que a gente ainda não sabia o que era vida. Talvez por isso fosse fácil e bonito. A gente ainda não sabia que vida muda a cor da parede e coloca um cheiro novo de cola e plástico nas coisas. E sem saber disso a gente continuava achando que podia conservar aquelas paredes laranjas e fazer delas nosso futuro, com toda certeza que ele seria ainda melhor que o presente.
A gente nunca mais viu aquelas paredes. E o cheiro de esperança pode ter acabado depois de alguma reforma, mas isso é coisa que não tem como saber. Algum outro perfume virou o meu favorito e eu nem sei dizer onde foi que eu o encontrei. Talvez tenha sido numa caixa nova que deixaram na porta de uma outra casa que se transformou na minha sem que eu tivesse tempo de te contar.
Já não conseguia mais escrever as cartas, nem cantar músicas. Não por falta de sentimento, mas parece que em algum momento as nossas mãos se soltaram e a cidade era grande demais para que a gente pudesse se entrelaçar. O mundo ficava no meio e impedia que nossos dedos se tocassem.
Continuei andando, acho que você também. E vez ou outra ainda tem uma carta guardada que me faz lembrar de quando nosso mundo era só um corredor.
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