Achei você bonito. Bonito e charmoso, daquele tipo que não tem erro. Bem aquele que a gente chama de tamanho único, padrão que qualquer mulher ia gostar de ter. O que era bem estranho, pensando que meu padrão sempre foi o mais diferente, pra não dizer esquisito. Só que você estava lá, assim desse jeito e eu não conseguia deixar de reparar que você tinha um perfume que ficava impregnado na minha roupa.
Eu era a menina chata. Aquela que te olhava com uma cara cínica, olhar perdido tentanto simular a Capitu, sem imaginar que na verdade você não era capaz de diferenciar Primo Basílio de Memórias Póstumas de Brás Cubas. E você, só fazia ironizar meus livros espalhados no meio da minha bagunça e cometer o pecado imperdoável de zombar o Chico. Eu me odiava porque eu deveria te odiar por zombar o Chico, mas só conseguia rir e achar meio charmoso esse seu jeito de falar de pop rock como se isso fosse o máximo.
Você era tão irritantemente diferente do que tinha escolhido como certo, que eu brigava comigo pra tentar te diminuir diante dos meus critérios metódicos de nivel de cultura, mas vinha aquele seu maldito sorriso na minha lembrança e eu logo me esquecia de criar uma lista de defeitos que justificasse a exclusão do seu número na agenda do meu celular. Porque cada vez que eu cogitava essa hipótese logo em seguida percebia que com isso eu nunca mais veria seu nome me chamando, e nunca mais sentiria ondas de tsunami no meu estômago de tanto nervoso e ansiedade em escutar o que você queria me dizer.
O que acontece é que eu fui mesmo me apaixonando por essa coisa de você não ser nada perfeito pra mim. Porque eu sabia que não tinha nada mais que fizesse a gente querer estar juntos a não ser a vontade de estar juntos. Eu fui me apaixonando porque a gente tinha todos os motivos pra não querer estar, mas queria estar.
Me apaixonei pelas flores que você não me mandava e pelas cartas de amor que você nunca me enviou. Nelas fatalmente viriam frases copiadas de um livro barato que você nunca leu, jogou no google e copiou de qualquer site sem credibilidade. Mas ao invés disso você preferiu rir comigo na cama e simplesmente dizer que tinha vontade de me ver, pra me ouvir falar daquela banda com nome esquisito, que você mal conhecia, mas gostava do jeito como eu cantava desafinado pra te mostrar a letra descolada. E eu preferi ouvir suas palavras simples cheias de verdade e assumir que gostava de Jota Quest e que até toparia ir ao show do Capital Inicial.
Todas essas coisas me deram a coragem, e foi a coisa mais linda que eu ganhei. Coragem pra continuar com o que eu acreditava, e coragem pra descobrir tudo aquilo que eu poderia acreditar. Um sentimento de plenitude em encontrar paz com alguém que não me dava nada além de sinceridade. Assim, sem Chico, sem show e sem poesia.
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