Foi quando eu entrei naquela sala, chamada de última hora pra reunião que eu nem sabia que ia acontecer. Foi quando eu bati o olho em você que todos os clichês se personificaram em um segundo me dizendo que você era o cara certo. Aquela meia duzia de coincidências a nosso respeito e a forma como a gente deixou todo mundo de lado e deu a maior bandeira trocando telefones só deixava mais explicito que aquela era a história pra terminar como as histórias clichês terminam.
Alto e charmoso, mas não muito bonito. Com o cabelo arrumado e aquela covinha no queixo. Bem do jeito certo pra me deixar com vontade de começar. E mesmo depois de trocar centenas de mensagens que diziam tudo sem dizer nada e te receber na minha casa por algum motivo inventado que você incentivava, eu mal conseguia lembrar qual era seu rosto. É, eu realmente estava gostando de você.
Durante meses aquelas paredes e linhas telefônicas eram cúmplices das nossas cantadas baratas que não conseguiam virar nada além de lugar comum. E mal sabia você que esse tempo exato em que tudo e nada aconteciam quando a gente conversava no meu sofá só fazia aumentar a minha vontade de passar a noite toda beijando seu cheiro de perfume misturado com cigarro.
Uma cerveja, Duas cervejas. Duas cervejas e duas taças de vinho. Era aquela a noite.
- “Você tem namorado”?
-”Não” – eu respondi tentando disfarçar meu nervosismo e parecer desprendida mesmo estando meio bêbada
- “Te falei que eu tenho namorada né”?
- “Não” – repeti, só que dessa vez com ar de quem não está nem aí, com a maior naturalidade do mundo, tentando fingir meu desespero com um risinho leve, bebendo rápido mais um gole de vinho enquanto uma bomba explodia nos meus ouvidos e pedras de gelo despencavam na minha cabeça.
Você me beijou. E eu esqueci de qualquer coisa que pudesse fazer com que seu corpo saisse de cima do meu naqueles segundos. Porque tudo aquilo que eu já sabia que ia sentir quando você estivesse comigo de fato aconteceu. Aqueles malditos sinos e borboletas que batiam as asas mais rápido do que as batidas do meu coração. Noites em que eu senti que o mundo devia acabar alí mesmo, com as nossas pernas entrelaçadas, pra eu esquecer que o telefone iria tocar nos instantes seguintes com algum pedido pra você voltar logo pra casa.
Trocas de palavras cada vez mais intensas, construindo uma relação que não existia de verdade, a não ser pelo meu desespero em responder cada gesto seu. Nossa história, que na verdade era só minha, começava a se pautar na urgência em estar junto e ir embora antes que o celular te chamasse de volta pra vida real.
E assim, no desespero em te deixar saber que eu estava ali, foi que eu me dei conta de que na verdade você, o cara perfeito que jogava basquete, desde o começo era o cara mais errado do mundo. E era por isso que eu estava tão apaixonada. É… clichê.
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